Holy Motors (Leos Carax, 2012)

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Elegia performática – e surreal – à representação e à encenação, ao estar no mundo e ter de retribuir a ele por essa presença, reagir ao que nos cobra a cada manhã em que pomos o pé fora da cama antes de abrir a janela do quarto: é na arte, e especialmente no cinema, sob o olhar impetuoso da câmera, que o homem encontra possibilidades de confrontar essa relação e desdobrar seu próprio eu, moldá-lo, despistá-lo, ou ainda reencarná-lo sob a esfinge de múltiplas e distintas idiossincrasias (multiplicar seu corpo, pode-se também dizer?). Se em Profissão: Repórter Antonioni nos alertava a respeito da condição primária da existência – escapamos de todos, menos de quem somos; abandonamos a tudo, exceto nossa alma e nosso corpo -, Carax apodera-se das possibilidades da narrativa e dilui essa eterna crise da existência pelos trilhos (palavra antiquada, gesto de resistência) da pós-modernidade para dissolver o que havia de analógico – e portanto físico, material – através do impalpável espaço moderno, esse espaço virtual que propaga pelo mundo um campo fantasmagórico e invisível, de cujo poder ainda não conhecemos verdadeiramente, talvez sequer tenhamos chegado próximo de fazê-lo. Ao ator, um sempre mágico Denis Lavant, cabe reinventar-se a cada curva feita pela limousine branca que o transporta, símbolo de uma era na qual para fazer cinema – e, portanto, para dar a si esta oportunidade de reencarnação e multiplicação – eram necessários grandes rolos de celulóide e um maquinário pesado, inacessível à maioria. Este mesmo tempo em que homens usavam fantasias e adereços para ocultarem-se sob a égide de um dragão – hoje não mais; hoje os sensores de movimento captam cada gesto e forma do corpo, e na imagem cinematográfica o cobrem digitalmente para devolvê-lo ao olhar sob forma de uma nova espécie. A este homem em constante transformação cabe esconder-se em avatares, interpretar personagens, matar a si mesmo e nascer novamente como outro ser, em uma nova existência cercada de problemas e situações que se dissipam tão logo troca-se a identidade – e não é isto o que a câmera propõe, que geremos e matemos um novo ser no tempo em que vivemos um filme? Camaleões da modernidade, estes homens que nascem e morrem a cada vez que o botão de um projetor é acionado. Holy Motors é o registro deste imensurável caos, fundamental para que o cinema persista no mundo.

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Um comentário sobre “Holy Motors (Leos Carax, 2012)

  1. Suas críticas sempre são excelentes. Esta me deu uma visão diferente sobre a obra do Carax. Obrigado! Você tem um fã na Paraíba.

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