Comentários: Trama Fantasma e Projeto Flórida

Trama Fantasma (Paul Thomas Anderson, 2017)

De Sangue Negro (2007) a Trama Fantasma (2017), são dez anos em que o cinema de Paul Thomas Anderson se firma como um consistente olhar para construções sociais do século XX, especialmente da América: a colonização e a formação de impérios econômicos; fenômenos midiáticos e os valores do pós-guerra; contracultura e a ruptura desses valores. Mais uma vez na companhia de Daniel Day-Lewis, não por acaso um dos pilares dos melhores trabalhos do diretor, o novo filme de PTA desloca este olhar para o interior de uma grande mansão vitoriana e invade a instituição privada do matrimônio, a qual também vemos brotar de uma convenção: a união entre o criador e a musa. O primeiro encontro de Reynolds Woodcock e Alma, personagens cujos nomes já reverberam a tônica sacana da produção, começa e termina da maneira mais improvável: de uma brincadeira auspiciosa na mesa do café da manhã até Woodcock preparando um vestido sobre as medidas do corpo de Alma, que no ápice deste encontro tem efeito semelhante ao mais tradicional beijo na boca. Então que o gesto de vestir Alma obviamente culminará no horror de despir sua própria alma, de abrir o umbral da intimidade para o outro e estabelecer uma relação ao mesmo tempo tóxica e imprescindível de amor e dominação, cumplicidade e poder, com severas consequências na maneira com que cada um opera em sua função nesta engrenagem – o rigoroso criador sendo progressivamente desestabilizado e dominado pela musa. E as grandes sacadas de Anderson na subversão dessas facetas surgem tanto no âmbito formal, na apropriação de códigos de gênero que sustentam a trajetória da relação (filmada ao mesmo tempo como um suspense de Hitchcock e uma comédia de Buñuel), quanto na performance das figuras centrais desse jogo. O que atinge o ápice na maravilhosa cena do jantar, quando a ação absolutamente cotidiana de cozinhar a refeição alcança uma dimensão vigorosa de cuidado e envenenamento, reservando desde já seu espaço entre os grandes momentos do ano no cinema.

Projeto Flórida (Sean Baker, 2017)

Alguém dirá que Sean Baker acomodou-se em sua proposta de registrar vidas à margem do famigerado sonho americano, elegendo filme a filme protagonistas como atrizes da indústria pornô (Starlet), prostitutas transsexuais (Tangerine) e, no caso de Projeto Flórida, moradores de pequenos guetos fundados próximo ao monumental parque temático da Disney em Orlando – dado amplamente divulgado em press releases e outros apetrechos publicitários como se fosse o essencial da obra. Entretanto, o delicioso em Projeto Flórida é justamente reparar no quão espirituoso e libertário um cineasta pode ser mesmo quando o mundo inteiro supõe saber o que esperar dele, bagunçando convicções com um furacão de fabulação e humanismo. Projeto Flórida é um legítimo anti-cinema da era Facebook, pois liberta as personagens e suas histórias de condições previamente negociadas em defesa de um ponto de vista – é o anti-Corpo Elétrico, por exemplo, para ficar num brasileiro recente -, de um conceito que se impõe acima do próprio filme. Daí que, ao invés da dívida moral apaziguadora que assedia hoje o cinema, Baker prioriza os prazeres do olhar e os encantos da imaginação, extraindo de cada situação cotidiana uma dinâmica inventiva que conduz o filme por caminhos bem revigorantes. Mergulha com irreverência na inocência da infância e nos percalços da vida adulta, erige todo seu espaço com os dois pés no artifício, percorre pátios e rodovias, restaurantes e quartinhos de motéis à beira da estrada na companhia de suas personagens, extraindo experiências lúdicas de pequenas historietas que tecem um mosaico sobre a vida naquele microcosmo – sobre pessoas que ali habitam, muito mais que sobre o microcosmo em si. E tudo isso com fina ironia, já que é justamente no campo da fábula infantil, tão dominado pela Disney, que Baker encontra as principais virtudes da obra – desde a dinâmica de descoberta do mundo pelas crianças, o ritmo vertiginoso, o uso incisivo do humor, o colorido psicodélico que parece mesmo saído de um desenho animado, até Willem Dafoe, o mais cartunesco dos rostos americanos, conversando com animais.

Comentários publicados originalmente no fanzine impresso Zinematógrafo.

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