O Acampamento (Damien Power, 2016)

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Boa surpresa esse Killing Ground, thriller australiano importado de Sundance. Filme se instala numa tradição manjada do survival rural, com o casal urbano isolado na mata virgem e idílica confrontando psicopatas rednecks, mas desde o início lida de maneira muito franca com o espectador. A primeira metade é o Dunkirk que deu certo, três narrativas paralelas ambientadas em diferentes tempos e espaços que embora sustentem um mistério também deixam as coisas muito às claras, sem travessuras, organizando os núcleos até que eles entrem em colisão – o plano-sequência em que isso finalmente ocorre é ótimo, estrelando o melhor bebê nos cinemas em 2017. A partir daí o filme entra num exercício de brutalidade também muito franco, fico um pouco incomodado com isso sempre mas como o Knock Knock do ano passado ele faz uso dessa brutalidade para imergir no contexto e promover a subversão das peças no último ato então ok. E é no ato final que Damien Power aproxima ainda mais seu filme de um Just Before Dawn, do Jeff Lieberman, com algumas soluções de cena/roteiro bem imaginadas e a diluição dos arquétipos do herói e da garota. O médico bonitão que parece cometer um ato de bravura e heroísmo mas na verdade tá perdidaço e cagado de medo, os policiais mongolões, os caipiras delinquentes que acertam um ao outro durante a caçada pela mata, e finalmente a personagem feminina que assume a parada pra resolver tudo no braço. O espaço valoriza a ação e é muito bem ambientado, com um bom aproveitamento das locações, da luz quente do campo australiano e dos enquadramentos em scope. E enfim, bem convencido de que aquele bebê sobreviveria a um desastre nuclear.

Melhores Filmes de 2017: Primeiro Semestre

Breve seleção extraída entre os mais de 200 filmes exibidos no circuito comercial brasileiro de janeiro a junho. Utilizei como base o calendário de estreias disponibilizado pelo Filme B, desconsiderando obras que retornaram às salas depois de já exibidas em seus respectivos anos de lançamento – caso, por exemplo, do monumental Hiroshima Mon Amour. Posições não muito precisas, mas uma força interior sempre me impede de fazer listas em ordem alfabética. Ainda não vi algumas estreias do mês de junho que me interessam, mas dificilmente alterariam as 10 posições da lista – podem entrar posteriormente na seção de recomendações ao final do post. Suponho que pelo menos a metade inicial tenha lugar garantido no Top 10 de 2017.

137653610. Fragmentado (Split; M. Night Shyamalan, EUA, 2016)

Se A Visita trazia um frescor inesperado ao cinema de Shyamalan pela apropriação autorreflexiva e satírica de um recurso saturado como o found footage – recurso frequentemente esnobado por fãs do próprio diretor e do cinema de horror -, não deixa de ser decepcionante que Fragmentado, ao contrário, opere numa esfera muito confortável de fanservice: assume um universo compartilhado para a obra do cineasta (picaretagem do momento em Hollywood), retorna ao suspense de camadas psicológicas facilmente aceito pelo bom gosto institucionalizado – que o legitimou como autor lá em O Sexto Sentido. Apesar de tudo, suas qualidades como fabulador, a força das imagens e a crença no poder da fé e da imaginação são suficientes para sustentar o filme.

the-death-of-louis-xiv-hero9. A Morte de Luís XIV (La mort de Louis XIV; Albert Serra, FRA/PT/ESP, 2017)

O ritmo ditado pelo compasso da morte, a atmosfera letárgica, a imobilidade, os closes nas faces, a carne apodrecendo, o tic-tac do relógio e o espaço claustrofóbico; elementos que nos aproximam dos últimos suspiros de um homem, experimentando tanto a dor do enfermo quanto a angústia dos que esperam. Leaud em interpretação absurda. Filme difícil de entrar, mas cujos fins justificam o estranhamento inicial. O senso de humor com que filma a solenidade monárquica e as ações dos que servem ao rei em seus dias derradeiros também é ouro. – “O Rei morreu” – “Está anotado, Senhor” & “Faremos melhor da próxima vez”.

filsjoseph058. O Filho de Joseph (Le Fils de Joseph; Eugène Green, FRA/BEL, 2016)

Depois de evocar os universos da música, do cinema e da arquitetura, Green retorna ao da literatura. O que inicia com a busca de um jovem pela figura paterna no meio editorial parisiense – com todos os easter eggs e a acidez típica do cineasta na reprodução desse ambiente – transforma-se muito naturalmente em um conto de aspirações literárias anacrônicas, até efetivamente se tornar uma parábola aos moldes bíblicos. Não está à altura de seus grandes trabalhos, mas Green segue um dos diretores atuais mais idiossincráticos e fascinantes.

JW2_D26_6523.cr27. John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick 2; Chad Stahelski, EUA, 2017)

Uma narrativa espelhada, duas missões transformadas em frenéticos set pieces de ação. O retorno a John Wick parte da ambição sang-sooniana de oferecer a uma mesma estrutura de ação – o primeiro filme, e principalmente sua minuciosa sequência de invasão à boate – novas possibilidades de encenação, num exercício formal extremamente cuidadoso com os movimentos de câmera, corpos, luzes e cores, e os efeitos que produzem em tela. Um dos melhores trabalhos recentes de encenação da ação no cinema industrial hollywoodiano, que ainda amplifica a mitologia e a força do primeiro filme.

get6. Beduíno (Beduíno; Júlio Bressane, BRA, 2016)

A obra recente de Bressane, o mais jovem dos cineastas, transita pelo que há de essencial no ato de encenar. Beduíno é o corpo, a performance, os gestos, a incidência da luz nas formas e nas imagens. É o estúdio como portal para outros espaços, outros tempos e até mesmo outros filmes. É também o trenzinho que percorre a sala carregando uma câmera digital, passeando entre as pernas da Alessandra Negrini. Se em Educação Sentimental Bressane narrava o fim da película, Beduíno é um prazeroso filme de redescobrimento, novo capítulo de um cinema que nunca cansa de se reinventar.

john from5. John From (John From; João Nicolau, PT, 2015)

Durante as férias de verão, uma mostra fotográfica desperta numa adolescente entediada a paixão pelo novo vizinho fotógrafo. Como se O Espírito da Colmeia fosse reimaginado a partir de um coming of age romântico teen. O cotidiano rotineiro progressivamente preenchido pelas fantasias do primeiro amor, com composições deliciosas e algumas das cenas mais bonitas vistas este ano no cinema. Possui imperfeições formais e estruturais típicas do trabalho de novos cineastas, mas João Nicolau é tão apaixonado pela fantasia que filma – e o filme emana tanto esse amor – que se torna irresistível.

rester-vertical---alain-guiraudie4. Na Vertical (Rester Vertical; Alain Guiraudie, FRA, 2016)

Green, Guiraudie, Rodrigues e Assayas lançaram parábolas este ano, e Na Vertical me parece a mais bem resolvida – em parte por evitar inteligentemente o excesso de espertezas extracampo. Estamos mais uma vez nas paisagens rurais francesas, numa atmosfera nonsense mais próxima de O Rei da Fuga que do thriller Um Estranho no Lago, filme anterior do diretor. Guiraudie subverte estereótipos e cria uma jornada de vida e danação a partir do prazer e da carne. A câmera filma tudo frontalmente: da pegada na genital às próprias genitais à transa ao parto à gerontofilia à morte durante penetração em plano-sequência, sempre alheia aos discursos de gênero corriqueiros – e, na maior parte das vezes, formatados e oportunistas – do cinema dessa década, e mantendo até o fim uma liberdade e uma espirituosidade singulares.
P.S.: “Sodomizou e eutanasiou um velho na frente de seu bebê” é a melhor manchete de jornal ever.

5488253. Toni Erdmann (Toni Erdmann; Maren Ade, ALE/AUS, 2016)

A grande sensação das listas de 2016. Confesso que essa unanimidade gerou em mim uma postura defensiva que o próprio filme foi desarmando a cada novo momento imaginado com brilhantismo – e são muitos, especialmente na segunda metade. Ade possui um olhar extremamente perspicaz para os detalhes e o andamento das cenas; as ações se dilatam, os conflitos centrais diluem-se no tempo, e raramente há uma sequência que não seja concluída com alguma pequena surpresa. É deste fluxo incomum que nascem as principais virtudes de Toni Erdmann, aliado ao humor peculiar com o qual constroi o jogo de encenação entre pai e filha, num gesto impossível de reconciliação entre gerações e valores.

z cidade2. Z – A Cidade Perdida (The Lost City of Z; James Gray, EUA, 2016)

Gray busca inspirações na pintura e em um modelo de jornada conradiana anacrônica para ambientar a selva amazônica como esse espaço idílico de sonho e delírio, imergindo nela homens assolados pelo desejo de reconciliação com as próprias origens. O explorador que entrega sua vida à obsessão por descobrir um novo mundo, pois já não suporta mais o seu. O filho, num misto de ódio e amor ao pai, que aceita essa mesma jornada para finalmente comunicarem o amor um pelo outro. É aquele primor de storytelling, densidade e poesia que esperamos de todo novo Gray.

woman1. A Mulher Que Se Foi (Ang babaeng humayo; Lav Diaz, FIL, 2016)

Pode não ser o grande filme do semestre (who cares), mas foi a sessão mais arrebatadora. Meu primeiro Diaz, e é incrível conhecer o trabalho de bons cineastas diretamente na tela grande. BTW, as três primeiras posições são ocupadas por filmes com mais de 2h20 que aproveitam cada minuto para amplificar suas atmosferas e conflitos – neste são 4 horas dedicadas a isso. Das impressionantes e quase impressionistas imagens noturnas das ruas filipinas aos diálogos (e canções!) exasperantes registrados em planos-sequência, é um mergulho no cotidiano de pessoas envoltas pelas sombras, castigadas pelo passado e vivendo duras consequências de ações de terceiros – seja o Estado, a família ou ex-amores vingativos.

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Vale a pena ver: Além das Palavras (Terence Davies), Aliados (Robert Zemeckis), Até o Último Homem (Mel Gibson), A Cidade Onde Envelheço (Marilia Rocha), Com os Punhos Cerrados (Ricardo Pretti, Luiz Pretti e Pedro Diógenes), Corra! (Jordan Peele), Manchester à Beira-Mar (Kenneth Lonergan), Martírio (Vicente Carelli), O Ornitólogo (João Pedro Rodrigues), Paterson (Jim Jarmusch), Personal Shopper (Olivier Assayas), A Qualquer Custo (David Mackenzie), Silêncio (Martin Scorsese), A Tartaruga Vermelha (Michaël de Wit)

A Carta que Não se Enviou (Mikhail Kalatozov, 1959)

A estranheza do primeiro ato, com seus conflitos piegas e montagem truncada, não nos prepara para a força surpreendente do ato final. Quatro geólogos exploram a imensidão gélida e monocromática da Sibéria selvagem à procura de diamantes, e o que salta aos olhos desde o início é a expressiva cinematografia de Sergei Urusevsky, colaborador de Kalazotov em seus principais trabalhos (Soy Cuba, The Cranes are Flying), e como ela registra esses personagens e o ambiente misterioso e potencialmente hostil que percorrem, flertando por vezes até mesmo com a abstração. A profundidade de campo, o chiaroscuro acentuado e o aproveitamento do espaço e da luz nos planos abertos são os principais responsáveis pela imersão neste cenário que calmamente engole um a um, conforme a natureza relembra aos homens sua vulnerabilidade frente a ela. Tudo se torna mais forte quando os blocos dramáticos irregulares, mediados por flashbacks e pelos diálogos em si, são substituídos por uma fisicalidade angustiante, própria das aventuras de exploração e sobrevivência, com personagens perdendo progressivamente as forças e a lucidez. É um filme mais próximo da fórmula de aventura do cinema ocidental que a média dos pares russos do período, mas nem por isso menos interessante.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar (Chad Stahelski, 2017)

Uma narrativa espelhada, duas missões que se transformam em frenéticos set pieces de ação. O retorno de Stahelski e Reeves a John Wick parte da ambição quase sang-sooniana de oferecer a uma mesma estrutura de ação – o primeiro filme, e especialmente sua sequência de invasão à boate, a mais minuciosamente coreografada – novas possibilidades de reencenação, num exercício formal extremamente cuidadoso com os movimentos de câmera, corpos, luzes e cores, e os efeitos que produzem em tela. É portanto essencial que, para cada acusação de refilmagem gananciosa ou picareta recebida por essa continuação, exista um momento da segunda parte recriando outro da primeira, num círculo autoconsciente da ação que culmina em um gatilho para outra continuação. Essa estrutura centrífuga oferece a Stahelski um espaço despojado para exercitar seu domínio sobre os códigos do cinema de ação hollywoodiano (com uma mise-en-scène que lembra ainda os mestres da ação asiática – Johnnie To, John Woo, Tsui Hark, etc), focando no que é essencial para a fruição dessa ação – a coreografia detalhista de lutas e tiroteios, a distância da câmera e seu enquadramento, o ritmo dos planos e da montagem. A missão nas catacumbas romanas e o inacreditável embate na galeria de arte contemporânea não empalidecem frente à sinfonia visual de um Kill Bill Vol 1. (Tarantino) e à lógica alucinante de gameplay de um Resident Evil 5: Retribution (P. S. W. Anderson), exercícios formalistas dos mais interessantes no cinema de ação popular recente (os fãs de Mad Max: Fury Road também podem inclui-lo nessa lista). Destaca-se também a atenção do filme à construção de sua mitologia particular, amplificando a atmosfera da primeira obra, seus cenários, personagens, códigos morais e de conduta, e reimaginando o espaço urbano da metrópole ao conceder a alguns de seus signos uma conotação de farsa que serve diretamente à mitologia. A quem ainda espera algo do cinema de gênero norte-americano, Chad Stahelski é um nome a ser observado.

Comentários: Até o Último Homem, Filhos do Medo, Resident Evil 6, Tempestade da Alma, Toni Erdmann

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Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, 2016), de Mel Gibson

Pacotão Mel Gibson completo, com todas as suas virtudes e excessos. Mas a intensidade com que os primeiros passos daqueles homens na guerra são recebidos por nós, com uma profusão delirante de balas perfurando corpos, cadáveres putrefatos mergulhados na lama e um gore muito explícito, garante a longa sequência de batalha do filme – em especial a primeira batalha, até que os combatentes se recolham pela primeira vez – como um dos melhores momentos dessa temporada do Oscar.

the_brood_1979Filhos do Medo (The Brood, 1979), de David Cronenberg

Parte do meu problema com esse neociclo de horrores domésticos com dramas maternais alegóricos se intensifica diante de um filme como The Brood. Cronenberg não teme o desafio da autoria frente ao objeto/discurso, não se esconde detrás de alegorias ou truques ou pedagogias bem intencionadas, mergulha mesmo no delirante pesadelo da materialização da ficção através da forma e das imagens. Se boa parte dos filmes do gênero faria do terapeuta ensandecido não mais que uma ameaça antropológica, aqui a parada é séria: pela terapia as dores ganham vida, a cura ganha corpo(s), braços, sede de sangue, as emoções se convertem em violência carnal. Cronenberg não precisa de mais que quatro ou cinco planos para erigir um universo de morte muito palpável, e ao invés de artimanhas e turning points espertinhos, toda a ação encaminha-nos para um fim de doloroso e inevitável enfrentamento.

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Resident Evil 6: O Capítulo Final (Resident Evil 6: Final Chapter, 2017), de Paul W. S. Anderson

Começa com uma frenética coleção de set pieces ágeis de ação, mas aos poucos vai murchando e abraçando cada vez mais um esquematismo narrativo típico de capítulo final de franquia. Bate uma decepcçãozinha, até porque o tratamento dessa resolução dramática não chega ao nível do próprio Anderson em um Pompeii, e os recursos visuais das cenas de luta no final me soaram um tanto estranhos (aquelas projeções mentais da ação deslocadas e subaproveitadas, por exemplo, além da própria localização da ação no espaço claustrofóbico). Curto esse retorno a uma estética suja e grotesca, mais próxima dos games e do filme original, mas depois de Afterlife e especialmente Retribution lançarem a série num segmento de ação digital que potencializava e ressignificava o uso do CGI, fica soando um filme mais acomodado e convencional.

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Tempestades da Alma (The Mortal Storm, 1940), de Frank Borzage

Borzage busca essência humana numa sociedade corrompida por ideologia e violência. Ficção anti-nazista bastante dura no retrato do período, mas o melhor é justamente como atravessa esse registro para chegar à potência dramática devastadora do ato final.

toni-erdmannToni Erdmann (Toni Erdmann, 2016), de Maren Ade

O filme foi me conquistando no mesmo ritmo em que o performer/pai seduz a filha para entrar em seu jogo de encenação, até converter-se em completa entrega – dela e minha – na hora final. A fluidez com que os esquetes se articulam e a noção de fluxo de cena da Ade são bem impressionantes. Um tour pela própria essência do humor.

Meu Pecado Foi Nascer (Raoul Walsh, 1957)

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Walsh concilia muito bem um olhar crítico emblemático sobre o contexto histórico retratado com uma articulação dramática potente, brilhantemente modulada pela câmera e pelo espaço. Incrível aquele primeiro beijo entre escrava e senhorio, com suas contradições e relações de poder retumbando junto à tempestade, enquanto o vento rebenta as janelas da mansão e a banda sonora é perturbada pelo som da chuva e dos trovões – difícil não lembrar da sequência em que Hupperth e seu estuprador lutam contra o vento para fecharem as janelas do casarão em Elle, em outra relação complexa de atração e violência. É a história de dois escravos, um negro e uma branca. O rapaz, criado como filho por seu senhorio; a mulher, adquirida em leilão pelo mesmo homem (Gable, vínculo direto com o clássico E o Vento Levou…, em que a trama também é atravessada pelo início da Guerra da Secessão, e ao qual foi excessivamente e injustamente comparado à época), preparada aos poucos para ser sua esposa, enquanto uma carinhosa afeição passa a de fato se estabelecer entre ambos. Toda a hora final é bem impressionante e Gable como de costume é uma entidade, mas a grande força do filme reside justamente no conflito dos personagens de Poitier e De Carlo, no quanto ambos são perturbados por essa temerária proximidade com o patrão, que afeta sua sonhada liberdade. “Eu o odeio por sua bondade. Isso é pior do que a violência. Quando um homem usa um chicote, você sabe contra o que deve lutar. Mas essa bondade é uma armadilha que pode mantê-lo na escravidão para sempre”, Poitier afirma em um momento chave. É um melodrama (na acepção mais rigorosa e nada pejorativa do termo) que encara frontalmente essas questões, escolhendo caminhos tortuosos e nem sempre fáceis de se digerir, e que sobrevive ao largo do revisionismo social/histórico superficial de tantos outros filmes interessados nos mesmos temas (patriarcalismo, escravidão, racismo, objetificação da mulher, etc). Mais um bom Walsh à espera de melhor reconhecimento.

Meu Ano Cinéfilo (2016)

2016 – The Ultimate Collection

A série mais duradoura do blog – na verdade a única – está chegando à quarta edição. Listo aqui os meus mais belos, emocionantes, deliciosos e crocantes cineminhas do ano, divididos mais uma vez por séculos – a maior lista, com 50 filmes, enumera os favoritos do século XX vistos nos últimos 12 meses; a mais curtinha, dessa vez com apenas 15 filmes, destaca obras do século vigente que não estarão na lista de melhores do ano do circuito nacional, a ser publicada em breve, apenas porque não fizeram parte dele. Singela nota: 2016, o grande ano maldito de nossa história recente, também foi responsável por uma significativa redução no número de filmes vistos (foram 263, contra admiráveis 404 em 2015). Com tempo escasso para frequentar mostras e sessões, quem saiu perdendo foi a produção recente – o home cinema, quando possível, geralmente é dedicado a obras distribuídas pelos mais de 120 anos da história dos filmes. O resultado está aí. 2017, i’m ready for my close up.

SÉCULO XX

50-insignifigance50. Malícia Atômica (Insignificance; Nicolas Roeg, Reino Unido, 1985)

49-les-dragueurs49. Os Libertinos (Les Dragueurs; Jean-Pierre Mocky, França, 1959)

48-ah-long48. All About Ah-Long (Ah Long dik goo si; Johnnie To, Hong Kong, 1989)

47-born-in-flames47. Born in Flames (Born in Flames; Lizzie Borden, EUA, 1983)

46-hardware46. Hardware – O Destruidor do Futuro (Hardware; Richard Stanley, EUA, 1990)

45-touch-of-zen45. A Tocha de Zen (Xia Nü; King Hu, Taiwan, 1971)

44-cidade-violenta44. Cidade Violenta (Città Violenta; Sergio Sollima, França/Itália, 1970)

43-ryans-daughter43. A Filha de Ryan (Ryan’s Daughter; David Lean, Reino Unido, 1970)

42-society42. A Sociedade dos Amigos do Diabo (Society; Brian Yuzna, EUA, 1989)

41-married-a-witch41. Casei-me com uma Feiticeira (I Married a Witch; René Clair, EUA, 1942)

40-big-knife40. A Grande Chantagem (The Big Knife; Robert Aldrich, EUA, 1955)

39-slap-the-monster39. Slap the Monster on Page One (Sbatti il mostro in prima pagina; Marco Bellocchio, Itália/França, 1972)

38-bonnies-kids38. Bonnie’s Kids (Bonnie’s Kids; Arthur Marks, EUA, 1973)

37-casa-de-lava37. Casa de Lava (Casa de Lava; Pedro Costa, Portugal, 1995)

36-sudden-impact36. Impacto Fulminante (Sudden Impact; Clint Eastwood, EUA, 1983)

36-wind-across-the-everglade35. Jornada Tétrica (Wind Across the Everglades; Nicholas Ray, EUA, 1958)

34-le-orme34. Os Passos (Le Orme; Luigi Bazzoni, Itália, 1975)

33-fearmakers33. Fabricantes do Medo (The Fearmakers; Jacques Tourneur, EUA, 1958)

32-bons-homens-boas-mulheres32. Bons Homens, Boas Mulheres (Hao Nan Hao Nu; Hsiao-Hsien Hou, Japão / Taiwan, 1995)

31-orpheu31. O Testamento de Orpheu (Le testament d’Orphée, ou ne me demandez pas pourquoi!; Jean Cocteau, França, 1960)

30-lifeforce
30-spontaneous-combustion30. Força Sinistra / Combustão Espontânea (Lifeforce; Tobe Hooper, EUA, 1985 / Spontaneous Combustion; Tobe Hooper, EUA, 1990)

29-bebada29. Retrato de uma Bêbada – Caminho Sem Volta (Bildnis Einer Trinkerin – Aller Jamais Retour; Ulrike Ottinger, Alemanha Ocidental, 1979)

28-china-928. A Volta do Pistoleiro (China 9, Liberty 37; Monte Hellman, Itália / Espanha, 1978)

27-starman27. Starman – O Homem das Estrelas (Starman; John Carpenter, EUA, 1984)

26-bonheur26. As Duas Faces da Felicidade (Le Bonheur; Agnès Varda, França, 1965)

25-lineup25. O Sádico Selvagem (The Line Up; Don Siegel, EUA, 1958)

24-lieutenant24. O Tenente Sedutor (The Smiling Lieutenant; Ernst Lubitsch, EUA, 1931)

23-maria-malibran23. A Morte de Maria Malibran (Der Tod Der Maria Malibran; Werner Schroeter, Alemanha Ocidental, 1972)

22-kiss-of-death22. O Beijo da Morte (Kiss of Death; Henry Hathaway, EUA, 1947)

21-human-factor21. O Fator Humano (The Human Factor; Otto Preminger, Reino Unido, 1979)

20-mulheres-diabolicas20. Mulheres Diabólicas (La Cérémonie; Claude Chabrol, França / Alemanha, 1995)

19-keoma19. Keoma (Keoma; Enzo G. Castellari, Itália, 1976)

18-street-scene18. No Turbilhão da Metrópole (Street Scene; King Vidor, EUA, 1931)

17-pattes-blanches17. Pattes Blanches (Pattes Blanches; Jean Grémillon, França, 1949)

16-shura16. Demons (Shura; Toshio Matsumoto, Japão, 1971)

15-incompreso15. Quando o Amor é Cruel (Incompreso; Luigi Comencini, Itália, 1966)

14-last-wagon14. A Última Carroça (The Last Wagon; Delmer Daves, EUA, 1956)

13-sun-shines-bright13. O Sol Brilha na Imensidão (The Sun Shines Bright; John Ford, EUA, 1953)

12-legs-diamond12. O Rei dos Facínoras (The Rise and Fall of Legs Diamond; Budd Boetticher, EUA, 1960)

11-deliria11. O Pássaro Sangrento (Deliria; Michele Soavi, Itália, 1987)

10-quatro-noites10. Quatro Noites de um Sonhador (Quatre Nuits d’un Rêveur; Robert Bresson, França, 1971)

9-wild-boys9. Wild Boys on the Road (Wild Boys on the Road; William A. Wellman, EUA, 1933)

8-educacao-sentimental8. Educação Sentimental (Éducation sentimentale; Alexandre Astruc, França, 1962)

7-vampyr7. O Vampiro (Vampyr; Carl Theodor Dreyer, Alemanha / França, 1932)

6-paisa6. Paisà (Paisà; Roberto Rossellini, Itália, 1946)

5-morocco5. Marrocos (Morocco; Josef von Sternberg, EUA, 1930)

4-ultimo-mergulho4. O Último Mergulho (O Último Mergulho; João César Monteiro, Portugal, 1991)

THROUGH THE OLIVE TREES / UNDER THE OLIVE TREES
3-e-a-vida-continua3. Através das Oliveiras / Vida e Nada Mais (Zire Darakhatan Zeyton; Abbas Kiarostami, Irã / França, 1994 / Zendegi va digar hich; Abbas Kiarostami, Irã, 1991)

2-le-pont-du-nord2. Um Passeio Por Paris (Le Pont du Nord; Jacques Rivette, França, 1981)

1-estrangulador1. O Estrangulador (L’étrangleur; Paul Vecchiali, França, 1970)

SÉCULO XXI

rob-zombies-3115. 31 (31; Rob Zombie, EUA, 2016)

xx-10-miado-do-gato14. O Miado do Gato (The Cat’s Meow; Peter Bogdanovich, EUA, 2001)

hell-or-high-water-still13. A Qualquer Custo (Hell or High Water;  David Mackenzie, EUA, 2016)

inspectorbellamy112. Bellamy (Bellamy; Claude Chabrol, França, 2009)

xx-9-eternamente-sua11. Eternamente Sua (Sud sanaeha; Apichatpong Weerasethakul; Tailândia / França, 2002)

xx-8-a-princesa-da-franca10. A Princesa da França (La Princesa de Francia; Matías Piñeiro, Argentina, 2014)

xx-7-domino9. Domino: A Caçadora de Recompensas (Domino; Tony Scott, França / Estados Unidos / Reino Unido, 2005)

xx-6-escarabajo8. O Escaravelho de Ouro (El Escarabajo de Oro; Alejo Moguillansky, Argentina, 2014)

xx-4-spl-27. SPL 2: A Time For Consequences (杀破狼2; Pou-Soi Cheang, China / Hong Kong, 2015)

tal_johnfrom-800x4706. John From (John From; João Nicolau, Portugal, 2015)

xx-5-vinganca5. A Vingança de uma Mulher (A Vingança de uma Mulher; Rita Azevedo Gomes, Portugal, 2014)

ukr_9mar150186_rgb-0-2000-0-1125-crop4. Certas Mulheres (Certain Women; Kelly Reichardt, EUA, 2016)

xx-3-cavalo3. Cavalo Dinheiro (Cavalo Dinheiro; Pedro Costa, Portugal, 2014)

xx-2-um-filme-falado2. Um Filme Falado (Um Filme Falado; Manoel de Oliveira, Portugal / França / Itália, 2003)

MCDELTW EC008 1. Eleição 2 – O Submundo do Poder (Hak se wui yi wo wai kwai; Johnnie To, Hong Kong, 2006)

+ CURTAS

10. Night on Bald Mountain (Une nuit sur le mont chauve; Alexander Alexeieff, Claire Parker, França, 1933)
9. Quem Espera Por Sapatos de Defunto Morre Descalço (Quem Espera Por Sapatos de Defunto Morre Descalço; João César Monteiro, Portugal, 1970)
8. Vacanza Permanente (Vacanza Permanente; Adolfo Arrieta, Espanha, 2006)
7. Ako (Ako; Hiroshi Teshigahara, Japão, 1965)
6. Ten Minutes Older (Par desmit minutem vecaks; Herz Frank, União Soviética, 1978)
5. Suspense (Suspense; Phillips Smalley e Lois Weber, EUA, 1913)
4. Message of Greetings: Prix Suisse / My Thanks / Dead or Alive (Message De Salutations: Prix Suisse / Remerciements / Mort Ou Vif; Jean-Luc Godard, França, 2015)
3. Bridges Go Round (Bridges Go Round; Shirley Clarke, EUA, 1958)
2. Dainah La Metisse (Daïnah la métisse; Jean Grémillon, França, 1932)
1. A Caça (A Caça; Manoel de Oliveira, Portugal, 1964)